O meu bode de MPB é gigante. Tão grande que se fosse pra sacrificar num ritual de satanismo farofa, daria pra invocar o cão se pá umas três vezes. Seguidas. Mas essa é diferente. Essa é a que o meu pai cantava pra me fazer dormir. Essa é a que ele cantou agorinha ao telefone, sem nem dizer alô, antes de falar uns bons palavrões porque eu esqueci o portão da garagem aberto.
sexta-feira, 22 de novembro de 2013
quarta-feira, 6 de novembro de 2013
Eu teria usado óculos escuros antes com maior frequência se soubesse que eles são uma desculpa socialmente aceitável para ignorar certas pessoas na rua. Descobrir que também é possível chorar em público com eles sem deixar ninguém perceber foi um bônus. Só os hematomas nas minhas canelas que discordam um pouco dessa vibe Kátia Cega até em dias nublados, mas o que é uma cicatriz a mais abaixo do joelho perto de uma boa meia hora a menos tendo que usar um traquejo social que eu nunca tive para evitar o (inevitável) silêncio constrangedor.
terça-feira, 5 de novembro de 2013
quarta-feira, 24 de abril de 2013
coluna partida
outro dia pendurei no quarto uma reprodução muito
da vagabunda do coluna partida (1944) que eu comprei na época do colégio. cinco
minutos olhando pro quadro e eu já tinha colocado ele de volta na caixa de
tralhas velhas. não porque a moldura é a coisa mais pavorosa que eu já vi na
vida, mas porque, mesmo sabendo que eu nunca vou conseguir deixa-lo sossegado
em nenhum canto, de um jeito meio incômodo como um cutucão gelado no ombro, lá
de longe ele sempre me lembra dos dois motivos que me fizeram gastar uns bons
meses de mesada naquilo que por dias a minha mãe chamou de o-espanta-visitas:
primeiro, pra me lembrar que frida, aos 18 anos (que eu fiz na semana da
compra), mesmo depois de um para-choque ter atravessado a sua coluna num
acidente de trem e a ter deixado imóvel por meses, sofrendo dores horríveis e
com o corpo quase todo engessado, ainda pintou esse auto retrato deitada numa
cama durante as longas semanas de recuperação, nos intervalos entre as cerca de
35 cirurgias de reconstrução da pélvis, dos ombros, do pé direito, da perna
esquerda e da coluna.
e, segundo, pra me lembrar que angústia, descontentamento e dor sempre
lhe foram familiares, como são a todo mundo, eu acho, e ainda assim, naquele
momento tão complicado ela quis os representar na tela, mas não de um jeito
piegas. apesar das lágrimas, sua expressão está longe de ser frágil, é quase o
contrário. no entanto, também não acho que seja ódio ou raiva. é outra coisa. é
algo que as pessoas às vezes confundem com resignação, mas que na verdade eu
acredito ser coragem. talvez o tipo mais difícil e raro de coragem, aquele que
obriga a gente a deixar as nossas fraquezas expostas, ficando mais vulneráveis
que o normal, antes de descobrir o tamanho da nossa força de verdade.
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