quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Panti Noble


Tinha tudo pra ser aqui, mas foi na Irlanda mês passado que a entrevista de um cidadão num programa de rádio, sobre a homofobia no país atualmente, incomodou tanto o lobby católico que a emissora além de pedir desculpas publicamente também pagou mais de 80 mil euros pra galera da batina deixar o caso pra lá.


Aí nesse final de semana, rory o'neill, que é militante, por acaso faz drag e chamou a atenção para as opiniões preconceituosas de alguns colunistas irlandeses, se apresentou ao final de uma peça no teatro nacional e disse umas coisas fortes e verdadeiras demais para as pessoas não ouvirem.

E melhor trecho é o que ele, vestido de Panti Bliss, fala sobre como pessoas que nunca sofreram homofobia na vida dizem que só é preconceito quando você é jogado na prisão ou amarrado à uma carroça, e o resto não é nada. Em linhas gerais, ele discursa sobre como as pessoas gostam de ditar a maneira como as minorias devem reagir à opressão e à violência.


Na minha opinião mei torta e pouco embasada na teoria, o perigo maior da apropriação do discurso das minorias não está em tirar a visibilidade das militâncias, que muitas vezes são mesmo afobadas e tortas, mas sim no descrédito que o indivíduo passa a sofrer quando tiram dele a prerrogativa da palavra final. Como se as pessoas não fossem mais capazes de determinar o quê é ou não ofensivo para (e por) elas, como se, por exemplo, o negro não tivesse mais o poder ou o discernimento para dizer se uma piada foi ou não racista para ele, dependendo da aprovação dos brancos até para isso. 

É como se você tivesse que ficar esperando, paciente, sentado no seu lugar lá na cozinha, alguém vir te dizer sobre o quê você pode ou não se sentir oprimido e discriminado.

O vídeo tem mais de 10 minutos, mas vale a pena demais.

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Surya Bonaly

Parece até brinks eu escrever aqui sobre esporte, ainda mais patinação artística, uma coisa sobre a qual, todo mundo deve imaginar, eu obviamente sei tudo. Mas aguenta aí que a história é boa, o vídeo é curtin, eu fiz a lição de casa com pouca preguiça hoje e no fim das contas isso não é exatamente sobre patinação.

A moça simpática do vídeo é a Surya Bonaly, uma atleta famosa por, entre outras coisas, fazer um backflip nas olimpíadas de 1998 e aterrizar em um único patim. 

Acontece que já em 1976, muitos anos antes de surya entrar para o circuito, esse movimento era proibido pelo comitê de patinação sob a justificativa de que os saltos só seriam contabilizados se o atleta aterrizasse com um pé como nos saltos tradicionais, enquanto um backflip exigiria de qualquer ser humano uma aterrissagem nos dois pés. A desculpa não-oficial era de que tanto o ringue quanto o atleta corriam perigo, porque tornozelos e pernas inteiras poderiam ser quebradas e a superfície do gelo provavelmente seria danificada pelo impacto.

Aí a surya, que sempre era subestimada e prejudicada por juízes abertamente racistas, decidiu dar a eles um motivo real para receber uma nota baixa e transformou um movimento "ilegal" em algo que, tecnicamente, valia sim pontuação. E ela não é só a única mulher a fazer isso na história, ela é a única ATLETA ponto final. Outros três patinadores (com piruzinho, veja só) olímpicos já fizeram esse movimento, mas nenhum deles aterrizou em um patim. Nunca.

É claro que nessa apresentação ela recebeu uma nota ruim, mas esse backflip foi o FODA-SE dela pra eles. Um dos mais bonitos da história.