quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

logo agora




hunter s. thompson disse em algum lugar que a gente nasce e morre sozinho, mas que não passamos a vida inteira na solidão. pessoalmente, eu nunca soube diferenciar as duas situações. estar sozinho ou ser sozinho sempre tiveram o mesmo sentido pra mim, é só uma questão de semântica. talvez haja uma porção de escolha pessoal quando você decide analisar as coisas com mais atenção. no primeiro caso, por exemplo, não dá pra saber à primeira vista se houve a decisão de, em determinado momento, não estar com alguém. e aqui me refiro a todos os sentidos do "estar com": viver junto, estar na companhia, dividir o mesmo vagão do metrô, ter um relacionamento etc. escolher não estar com ninguém é perfeitamente entendível e, na minha opinião, até saudável em certos casos. 

já o ser sozinho, por outro lado, deve ter alguma coisa a ver com a falta das reações químicas certas no cérebro. é uma condição, independente da vontade e da insistência. e mesmo que os remédios a alterem por um período, todo mundo sabe que é permanente. poucas sensações na vida devem ser tão ruins quanto quando você se percebe incapaz de se conectar a alguém, não por diferenças de gosto ou estilo de vida, mas por uma coisa que, no fim das contas, está dentro e faz parte de você.

e às vezes isso pode ser tão fodido quanto quando você está sozinho por opção dos outros. da mesma forma, é daí, também, que vem a parte mais assustadora: a coisa toda está fora do seu controle.

olhando por esse lado, no início do último final de semana eu passei pelo que talvez tenha sido a pior experiência da minha vida: eu estava sozinho, mas não queria e nem podia estar. dentro de uma casa cheia. eu precisava de alguém para estar ali na minha frente e me encarar de volta, sem desviar o olhar. eu precisava de alguém que entendesse, alguém cuja presença fosse o suficiente para afugentar as coisas ruins que arranhavam e empurravam as paredes, tentando escapar. 

mas não tinha ninguém. todo mundo tinha outra coisa pra fazer, algum outro lugar para estar. então mais uma vez, do mesmo jeito que eu fazia quando era criança, tive que cerrar os punhos e atravessar isso sem nenhuma ajuda. e é até meio engraçado perceber que o eu-de-22 não tem a mesma força que o de 7, se muito, deve ter um terço. 
e embora parecesse impossível por causa da avalanche de desastres das últimas semanas, dessa vez eu consegui.

logo agora que a minha mãe decidiu não falar mais comigo, e dói tanto que eu sinto como se tivesse uma corda amarrada em cada braço e perna e uma força invisível, saída de dentro de mim mesmo, estivesse incessantemente puxando cada uma delas em uma direção diferente.

logo agora que por um momento (ou dois) eu achei que não era por minha causa que eu ficaria sozinho a vida toda, eu mesmo tive que dar um fim a uma coisa que claramente ia acabar me ferrando muito no futuro. e não no sentido legal.

logo agora que a gente supostamente deve ficar feliz e celebrar, eu não consigo encontrar nenhum bom motivo ou mesmo uma pontinha de esperança de que as coisas vão ser melhores no próximo ano.

logo agora que chegou um e-mail da amazon avisando que a edição de 1996 do hell's angels: the strange and terrible saga of the outlaw motorcycle gangs está disponível no estoque, talvez eu seja a prova viva de que a teoria do sr. thompson é furada.

logo agora, que eu tenho até boas razões para desistir, razões que vão muito além dessas que acabei de listar, eu ainda estou aqui.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

ombro no ombro



passei pelo menos a última uma hora relendo uma troca de e-mails do mês passado. foi uma tentativa meio desesperada, meio maníaca de descobrir de uma vez por todas o ponto em que eu disse a grande merda, a bobagem que entregou a minha personalidade desinteressante para esse moço que, ok, está a mais de 600 quilômetros e nunca demonstrou interesse de verdade em mim, só foi gentil. mas eu, essa pessoa equilibrada que releu de novo e de novo 12 mensagens que não diziam absolutamente nada, achei que isso era o suficiente para alimentar algum tipo de esperança.

na verdade, esse tem sido o meu modus operandi de auto-frustração desde que passei a dar ouvidos às pessoas e, ainda pior, a mim mesmo. não é que eu tenha ficado obcecado ou virado o monstro do relacionamento, imaginando uma vida inteira junto com o primeiro que me der bom dia na rua ou com quem me encarar de volta dentro do ônibus ou esbarrar por acidente em mim em alguma fila e se desculpar ou me dar a preferência num cruzamento ou não roubar a vaga do estacionamento etc. etc. etc. 

mas quase.

é quase um ritual. depois de toda rejeição, ou pra quem é mentalmente estável: choque de realidade, eu me tranco no quarto uns dois dias com a filmografia do john hughes e uns potes de strawberry fat free sorbet e choro todas as cataratas de que se tem notícia. dessa vez, no entanto, não consegui chorar. nem quando o jake aparece na porta da igreja, acena pra samantha e ela, confusa, precisa olhar ao redor para ter certeza de que não tem outra pessoa atrás. é a coisa mais estúpida do mundo, mas é assim, eu acho, que você percebe quando as coisas vão dar certo desde o começo. se você escreve com todas as letras que transaria com fulano e joga o papel por cima do ombro sem pensar duas vezes, no meio da sala de aula, é porque de alguma forma você já sabe que tudo vai dar certo. ou muito errado.

daí que foram quase dois meses de e-mails controlados, mensagens displicentes e ligações com o tom certo de entusiasmo. tudo para não parecer interessado demais e nem de menos. as pessoas dizendo que eu precisava tomar cuidado pra não sufocar, mas que também não podia parecer ser frágil demais. e, o mais importante, era esconder o que eu sentia de verdade. na dúvida, se faça de desinteressado, hoje eu não posso, pode ser outro dia? vamos deixar pro final de semana? 

mesmo que eu não tivesse absolutamente nada pra fazer e fosse assistir adventure time a tarde toda.

então dessa vez eu segurei a minha onda. gosto de pensar que eu soube brincar do joguinho do descompromisso, que achei natural, legal até, quando as pessoas se referiam a ele como "o meu namorado" e eu precisava explicar, com um risinho, que a gente não era bem isso. até hoje eu não consigo definir o que aconteceu entre nós, pra dizer a verdade. e, ao contrário do moço que está a 600 quilômetros de distância, houve alguma demonstração de interesse, sim. 

a não ser que o ato de enfiar a língua no fundo da garganta das pessoas tenha sido promovido a novo quebra-gelo da nossa geração, e agora é mais uma maneira de casualmente puxar conversa no elevador.

e o mais ridículo é que essa história toda podia muito bem ser resumida com um quote de sex and the city, coisa que obviamente significa: daqui pra frente, só se for ladeira acima. porque afundar mais deve ser humanamente impossível.



talvez eu seja mesmo o monstro do relacionamento, vindo direto de 1950 pra assombrar a turminha do amor livre. ou para engordar uns 15kg assistindo os clássicos da década de oitenta e ainda assim os atormentar com pedidos de explicação sobre como funciona essa coisa de não se prender a ninguém. o que for menos trabalhoso.

quarta-feira, 3 de outubro de 2012


acho que já cheguei naquela fase da vida em que as reclamações e, principalmente, as minhas teorias sobre o funcionamento do universo não soam tanto como um mimimi adolescente. pode até ser que alguém ache que há algo de sensato nelas e pode ser também que alguém leia essas baboseiras com a entonação de um senhor de mais idade, um pouco rouco e de fala arrastada, mas que sabe sobre o quê está resmungando porque viveu tudo aquilo de verdade. um velho rabugento de boina que se diverte pulando a medicação da tarde e dobrando as pílulas da noite só pelo prazer de um dia ser descoberto pela família, obrigando todos os parentes a visitá-lo mais vezes, cheios de culpa. mas enquanto a irmã solteirona não descobre ele se contenta com o sono prolongado e sem absolutamente nenhum sonho das 300 miligramas a mais. e acorda de bom humor, ligeiramente disposto a não xingar ninguém de mal educado no caminho até a padaria e nem mostrar o dedo do meio para criancinhas no banco de trás dos carros parados no sinal vermelho, do jeito que um velho fofinho deve ser: passivo-agressivo até os ossos fracos, com um leve cheiro de castanhas mofadas.

ou não, né. 

vai que essa velhice precoce não passa de frescura de gente que não subiu em árvore, correu descalço ou fez guerra de lama?

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

pouco mais de uma hora sentado no chão sujo do maleta e outras duas no café do palácio e eu tô com um dos maiores frios na barriga que já tive na vida. talvez não da vida toda, mas com certeza da vida adulta. não é aquele frio que aperta, o de ansiedade, nem o que faz o estômago se contorcer de incerteza. não é o enjoo do medo, menos ainda a expectativa e as suas centenas de asas voando em direções diferentes, querendo rasgar de dentro pra fora. se eu fosse um tantinho mais sensato diria que é um tipo meio ao avesso de tranquilidade, a que aparece quando você sabe que está, pela primeira vez em muito tempo, fazendo aquilo o que sempre quis com pessoas que você não achava que iria encontrar nunca.


















quarta-feira, 13 de junho de 2012


acordei com uma lista de ~pessoas pra me desculpar~ colada na parede do quarto e tem tanta gente incrível que eu não fiquei assustado com quem está em primeiro lugar, quem está em último e as menções honrosas. no papel está escrito assim: #1 geraldinho, desculpa ter ido até a sua casa 11 da manhã perguntar à sua esposa se você não iria abrir o bar ontem, eu não sou alcoólatra, fui obrigado. desculpa também se eu quebrei alguma coisa de valor do bar, é que também fui obrigado a jogar sinuca. por quem, jamais saberemos.

PRIORIDADES na vida.

terça-feira, 12 de junho de 2012


tem essa oportunidade incrível de estágio no site da puc. e o texto tá tão bem redigido, tão maravilhoso, que essa oportunidade incrível nem tá parecendo a última coisa que a galera lê antes de acabar escravo sexual num porão em algum país escandinavo.
fato é que essa oportunidade incrível me motivou a refazer o meu cv. e, gente, olha, nesses modelos tosquíssimos de internet que eu-obviamente-não-baixei-estou-apenas-consultando (risos eternos), tem esse espaço pra escrever as suas habilidades e, né, nessa altura dos acontecimentos a única coisa que eu me permito escrever ali sem me sentir um completo mentiroso, a única coisa que consigo dizer tranquilamente até para desconhecidos, a única coisa que, assim, tenho feito bem de verdade é automedicação.

sábado, 2 de junho de 2012


catarina morreu no domingo. o céu estava nublado, mas fazia muito calor. eu poderia ter passado o último final de semana com ela e os outros, mas escolhi ficar aqui por um motivo que agora não parece mais importante. na verdade, foi mais uma bobagem sem tamanho para a lista das coisas que tenho feito por puro desespero e burrice. 


os cinco filhotes ficaram três dias internados e morreram, um por um, ao longo dessa semana. catarina, a mais agitada e carinhosa, foi a primeira. 


à noitinha, logo depois das seis, no período em que eu tô acostumado a ouvir notícias ruins, mamãe ligou pra avisar. disse que foi de repente, sem razão aparente, mas que eu não precisava me preocupar porque essas coisas acontecem com a primeira ninhada mesmo, ela já tinha visto acontecer várias vezes. 


depois, na segunda-feira, sem eu saber, o palito não pulou mais. aí foi o grandão que ainda não tinha nome, o que nasceu primeiro. na terça, só restavam a lelê e o kiwi com bolsas de soro e medicação maiores que os seus corpinhos penduradas numa haste.


na manhã da quarta, quando minha mãe finalmente me disse a verdade, eu desci a rampa do 42 segurando uma choradeira de respeito, dessas que você espera não mostrar a ninguém. e eu nunca desço pela rampa, mas do jeito que as coisas estavam as chances de eu rolar aquela escada em espiral eram particularmente grandes. 


pelo estado em que cheguei à clínica a nova recepcionista já sabia quem eu era e me levou direto para a enfermaria, sem dizer nada. foi aí que desabou a choradeira vergonhosa que segurei tão bem enquanto voltava na sala para apanhar a mochila depois de ouvir da minha mãe que era melhor eu ir até lá assim que pudesse, e que também disfarcei tão bem no caminho até a portaria 12 da puc e no último banco do ônibus vazio.

ver aqueles dois, os dois últimos, respirando com tanta dificuldade, os olhinhos sem brilho virados para o nada, aquele monte de objetos de metal e aparelhos brancos, aquilo tudo me lembrou da morte da minha avó e da minha covardia; dos dias em que eu a visitei e assisti tv sentado na poltrona ao lado da cama, olhando de lado de vez em quando para conferir se a linha verde continuava subindo e descendo no monitor; de como eu não conseguia me concentrar nos textos da faculdade com o apito dos aparelhos; das poucas vezes em que ela acordou, não me reconheceu e sorriu mesmo assim; de como estava quente no luxemburgo na noite em que ela se foi; de como quase todo mundo estava no quarto; da minha tia que chegou bufando pelos corredores com uma meia de cada cor e o cinto afivelado por cima do jeans.

e, principalmente, de como eu preferi sair do quarto quando todo mundo percebeu que os intervalos da respiração dela ficaram mais longos e penosos até que ela aspirou sonoramente, com vontade, como se tivesse acabado de subir um lance de escadas, e não expirou mais.

aí eu também lembrei da madrugada em que os filhotes nasceram e do quanto, mais um vez, eu fui covarde e não consegui ficar no mesmo quarto onde tudo aconteceu. de como eu não ajudei, de como novamente eu deixei que outras pessoas carregassem a minha parte.

na quarta, matando aula e estágio, ignorando o celular e aquela conversa da veterinária de que é melhor acabar com o sofrimento deles, as pessoas que podiam me ver do corredor, firmando a mão que tremia um pouco e balançava a mangueira do soro, tentando controlar o medo paralisante que eu tenho da vida e de tudo isso, eu segurei as patinhas do kiwi e da lelê e fiquei. dessa vez eu fiquei. 

até o fim.

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catarina não morreu sozinha, ela ainda estava em casa, nos braços da minha mãe, mas aposto que foi tão doído quanto se estivesse encolhida numa maca da clínica, coberta com um lençol verde e fininho como os seus irmãos. catarina levou com ela um pedacinho de nós dois, da confiança que a gente compartilhava.

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kiwi acabou resistindo. voltou pra casa ontem à tarde e está um pouco melhor. hoje ele me acordou latindo lá de dentro da casinha que até semana passada ele dividia com os irmãos.

sábado, 26 de maio de 2012