segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

ombro no ombro



passei pelo menos a última uma hora relendo uma troca de e-mails do mês passado. foi uma tentativa meio desesperada, meio maníaca de descobrir de uma vez por todas o ponto em que eu disse a grande merda, a bobagem que entregou a minha personalidade desinteressante para esse moço que, ok, está a mais de 600 quilômetros e nunca demonstrou interesse de verdade em mim, só foi gentil. mas eu, essa pessoa equilibrada que releu de novo e de novo 12 mensagens que não diziam absolutamente nada, achei que isso era o suficiente para alimentar algum tipo de esperança.

na verdade, esse tem sido o meu modus operandi de auto-frustração desde que passei a dar ouvidos às pessoas e, ainda pior, a mim mesmo. não é que eu tenha ficado obcecado ou virado o monstro do relacionamento, imaginando uma vida inteira junto com o primeiro que me der bom dia na rua ou com quem me encarar de volta dentro do ônibus ou esbarrar por acidente em mim em alguma fila e se desculpar ou me dar a preferência num cruzamento ou não roubar a vaga do estacionamento etc. etc. etc. 

mas quase.

é quase um ritual. depois de toda rejeição, ou pra quem é mentalmente estável: choque de realidade, eu me tranco no quarto uns dois dias com a filmografia do john hughes e uns potes de strawberry fat free sorbet e choro todas as cataratas de que se tem notícia. dessa vez, no entanto, não consegui chorar. nem quando o jake aparece na porta da igreja, acena pra samantha e ela, confusa, precisa olhar ao redor para ter certeza de que não tem outra pessoa atrás. é a coisa mais estúpida do mundo, mas é assim, eu acho, que você percebe quando as coisas vão dar certo desde o começo. se você escreve com todas as letras que transaria com fulano e joga o papel por cima do ombro sem pensar duas vezes, no meio da sala de aula, é porque de alguma forma você já sabe que tudo vai dar certo. ou muito errado.

daí que foram quase dois meses de e-mails controlados, mensagens displicentes e ligações com o tom certo de entusiasmo. tudo para não parecer interessado demais e nem de menos. as pessoas dizendo que eu precisava tomar cuidado pra não sufocar, mas que também não podia parecer ser frágil demais. e, o mais importante, era esconder o que eu sentia de verdade. na dúvida, se faça de desinteressado, hoje eu não posso, pode ser outro dia? vamos deixar pro final de semana? 

mesmo que eu não tivesse absolutamente nada pra fazer e fosse assistir adventure time a tarde toda.

então dessa vez eu segurei a minha onda. gosto de pensar que eu soube brincar do joguinho do descompromisso, que achei natural, legal até, quando as pessoas se referiam a ele como "o meu namorado" e eu precisava explicar, com um risinho, que a gente não era bem isso. até hoje eu não consigo definir o que aconteceu entre nós, pra dizer a verdade. e, ao contrário do moço que está a 600 quilômetros de distância, houve alguma demonstração de interesse, sim. 

a não ser que o ato de enfiar a língua no fundo da garganta das pessoas tenha sido promovido a novo quebra-gelo da nossa geração, e agora é mais uma maneira de casualmente puxar conversa no elevador.

e o mais ridículo é que essa história toda podia muito bem ser resumida com um quote de sex and the city, coisa que obviamente significa: daqui pra frente, só se for ladeira acima. porque afundar mais deve ser humanamente impossível.



talvez eu seja mesmo o monstro do relacionamento, vindo direto de 1950 pra assombrar a turminha do amor livre. ou para engordar uns 15kg assistindo os clássicos da década de oitenta e ainda assim os atormentar com pedidos de explicação sobre como funciona essa coisa de não se prender a ninguém. o que for menos trabalhoso.

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