outro dia pendurei no quarto uma reprodução muito
da vagabunda do coluna partida (1944) que eu comprei na época do colégio. cinco
minutos olhando pro quadro e eu já tinha colocado ele de volta na caixa de
tralhas velhas. não porque a moldura é a coisa mais pavorosa que eu já vi na
vida, mas porque, mesmo sabendo que eu nunca vou conseguir deixa-lo sossegado
em nenhum canto, de um jeito meio incômodo como um cutucão gelado no ombro, lá
de longe ele sempre me lembra dos dois motivos que me fizeram gastar uns bons
meses de mesada naquilo que por dias a minha mãe chamou de o-espanta-visitas:
primeiro, pra me lembrar que frida, aos 18 anos (que eu fiz na semana da
compra), mesmo depois de um para-choque ter atravessado a sua coluna num
acidente de trem e a ter deixado imóvel por meses, sofrendo dores horríveis e
com o corpo quase todo engessado, ainda pintou esse auto retrato deitada numa
cama durante as longas semanas de recuperação, nos intervalos entre as cerca de
35 cirurgias de reconstrução da pélvis, dos ombros, do pé direito, da perna
esquerda e da coluna.
e, segundo, pra me lembrar que angústia, descontentamento e dor sempre
lhe foram familiares, como são a todo mundo, eu acho, e ainda assim, naquele
momento tão complicado ela quis os representar na tela, mas não de um jeito
piegas. apesar das lágrimas, sua expressão está longe de ser frágil, é quase o
contrário. no entanto, também não acho que seja ódio ou raiva. é outra coisa. é
algo que as pessoas às vezes confundem com resignação, mas que na verdade eu
acredito ser coragem. talvez o tipo mais difícil e raro de coragem, aquele que
obriga a gente a deixar as nossas fraquezas expostas, ficando mais vulneráveis
que o normal, antes de descobrir o tamanho da nossa força de verdade.
