hunter s. thompson disse em algum lugar que a gente nasce e morre sozinho, mas que não passamos a vida inteira na solidão. pessoalmente, eu nunca soube diferenciar as duas situações. estar sozinho ou ser sozinho sempre tiveram o mesmo sentido pra mim, é só uma questão de semântica. talvez haja uma porção de escolha pessoal quando você decide analisar as coisas com mais atenção. no primeiro caso, por exemplo, não dá pra saber à primeira vista se houve a decisão de, em determinado momento, não estar com alguém. e aqui me refiro a todos os sentidos do "estar com": viver junto, estar na companhia, dividir o mesmo vagão do metrô, ter um relacionamento etc. escolher não estar com ninguém é perfeitamente entendível e, na minha opinião, até saudável em certos casos.
já o ser sozinho, por outro lado, deve ter alguma coisa a ver com a falta das reações químicas certas no cérebro. é uma condição, independente da vontade e da insistência. e mesmo que os remédios a alterem por um período, todo mundo sabe que é permanente. poucas sensações na vida devem ser tão ruins quanto quando você se percebe incapaz de se conectar a alguém, não por diferenças de gosto ou estilo de vida, mas por uma coisa que, no fim das contas, está dentro e faz parte de você.
e às vezes isso pode ser tão fodido quanto quando você está sozinho por opção dos outros. da mesma forma, é daí, também, que vem a parte mais assustadora: a coisa toda está fora do seu controle.
olhando por esse lado, no início do último final de semana eu passei pelo que talvez tenha sido a pior experiência da minha vida: eu estava sozinho, mas não queria e nem podia estar. dentro de uma casa cheia. eu precisava de alguém para estar ali na minha frente e me encarar de volta, sem desviar o olhar. eu precisava de alguém que entendesse, alguém cuja presença fosse o suficiente para afugentar as coisas ruins que arranhavam e empurravam as paredes, tentando escapar.
mas não tinha ninguém. todo mundo tinha outra coisa pra fazer, algum outro lugar para estar. então mais uma vez, do mesmo jeito que eu fazia quando era criança, tive que cerrar os punhos e atravessar isso sem nenhuma ajuda. e é até meio engraçado perceber que o eu-de-22 não tem a mesma força que o de 7, se muito, deve ter um terço.
e embora parecesse impossível por causa da avalanche de desastres das últimas semanas, dessa vez eu consegui.
logo agora que a minha mãe decidiu não falar mais comigo, e dói tanto que eu sinto como se tivesse uma corda amarrada em cada braço e perna e uma força invisível, saída de dentro de mim mesmo, estivesse incessantemente puxando cada uma delas em uma direção diferente.
logo agora que por um momento (ou dois) eu achei que não era por minha causa que eu ficaria sozinho a vida toda, eu mesmo tive que dar um fim a uma coisa que claramente ia acabar me ferrando muito no futuro. e não no sentido legal.
logo agora que a gente supostamente deve ficar feliz e celebrar, eu não consigo encontrar nenhum bom motivo ou mesmo uma pontinha de esperança de que as coisas vão ser melhores no próximo ano.
logo agora que chegou um e-mail da amazon avisando que a edição de 1996 do hell's angels: the strange and terrible saga of the outlaw motorcycle gangs está disponível no estoque, talvez eu seja a prova viva de que a teoria do sr. thompson é furada.
logo agora, que eu tenho até boas razões para desistir, razões que vão muito além dessas que acabei de listar, eu ainda estou aqui.

