No primeiro dia eu consegui esquecer
as chaves de casa, o livro que eu estava a só um capítulo de terminar e a
carteira nova, que eu tinha deixado em cima do livro e ao lado do chaveiro, os
três bem no centro do aparador da sala - o único lugar da casa inteira
impossível de ignorar no caminho da porta.
Precisei de todo o desapego
involuntário do mundo pra não olhar para aquele troço antigo e cafona enquanto
tropeçava nos cadarços de um tênis e ainda terminava de calçar o outro
par.
A carteira eu sabia que ia acabar
perdendo mais cedo ou mais tarde, acidental ou propositalmente, logo quando
rasguei o papel de presente e vi o conteúdo verde limão do embrulho no último e
mais traumático dos amigos secretos da família, então não me aborreceu tanto.
Ao meu lado, sentada no banco do
ponto de ônibus com a postura de quem era a anfitriã de um evento de gala e com
os tornozelos roliços cruzados, Dona Lúcia revirava a bolsa amarela com certa
violência.
Não fosse o penteado armado e o batom
aplicado meticulosamente dentro da linha dos lábios, alguém poderia dizer que
ela também tinha apertado o botão da soneca mais vezes do que deveria e, pra
ganhar tempo no banho, pulado algumas partes do corpo que não deveria.
No segundo dia eu cheguei primeiro. Mal
a vi se aproximar, arrastando os passos e evitando por (perigosos) poucos
centímetros tropeçar nos buracos da calçada. Uma moça cedeu o lugar no banco já
cheio e Dona Lúcia agradeceu a gentileza com um "ah!" exagerado,
colocando a mão sobre o peito e inclinando a cabeça ligeiramente pro lado. Abandonei
a batalha quase perdida com um chiclete colado na sola do tênis para prestar
ainda mais atenção nela e, correndo o risco de parecer muito maluco, me
aproximei alguns passos grudentos. De ladinho.
Tentei disfarçar cobrindo os olhos
com a palma da mão, como se naquele canto a luz do sol estivesse me impedindo
de enxergar a rua à frente, mas na metade do meu teatrinho ridículo e antes que
eu pudesse dizer olá o ônibus que eu esperava dobrou a esquina e em segundos me
vi sambando no meio de uns adolescentes uniformizados que se acotovelavam para
embarcar primeiro.
Na quarta ela não apareceu. Nos cinco
primeiros minutos pensei seria e exaustivamente na possibilidade de ela estar estirada no
chão da cozinha, numa posição bem dramática, com 17 gatos brigando para comer o
que havia restado de carne no seu rosto em decomposição.
A única outra alternativa plausível
para a ausência dela no ponto de ônibus, na minha mente, era a de que,
naquele mesmo instante, Dona Lúcia estava cheia de propósito, de óculos escuros
e lenço de estampa floral na cabeça, atravessando (não muito depressa) a
estação central lotada e embarcando num trem para encontrar o filho bastardo
que ela deu pra adoção para salvar o casamento arranjado lá em São José do
Interior Sem Asfalto. Não sei exatamente o porquê, mas eu sempre imaginei que a
vida dela fosse cheia dessa quantidade absurda de drama e caixas de areia.
As quase duas horas a mais que eu
poderia ter dormido na manhã da quinta-feira eu passei pensando nela. E em
como, se ela ainda estivesse na cidade ou pelo menos viva e com o nariz inteiro
e no lugar, era minha culpa as chances de eu vê-la de novo serem tão
pequenas.
Primeiro porque na sexta eu não tinha
aula e era impossível prever quando ela estaria lá, menos ainda a hora em que a
sacolinha verde trocaria de braço com a bolsa amarela e a respiração impaciente
indicaria que o ônibus que nunca chegou estava atrasado. E ela executava graciosamente todas
essas manobras de risco enquanto se equilibrava no banco de metal estreito e
sem encosto. Era como assistir a uma corrida de motocross com porquinhos da
índia superdesenvolvidos, sem os polegares, no lugar dos pilotos.
Da mesma forma que o meu súbito
interesse por ela veio de algum lugar que até hoje eu não consigo explicar, o
lugar para onde ela ia também era um mistério. Nas semanas seguintes, sempre
que a gente estava junto no ponto, Dona Lúcia nunca ia embora antes de mim. Algumas
vezes deixei o ônibus das 7h15 passar e fiquei lá esperando o próximo só para
tentar descobrir pra onde ela ia ou se ela pelo menos saía dali, mas ela nunca
dava sinal para nenhum, o braço fino nunca deixava de abraçar a bolsa amarela
contra o peito. E eu nunca juntava coragem suficiente para perguntar.
Eventualmente viramos o que a minha
tia mais velha chama de parceiros de perrengue: aquela pessoa meio desconhecida
que, apesar de não existir contato direto, divide com você as piores experiências
do dia com certa regularidade, criando uma ligação quase tão profunda e bonita
quanto a que você tem com a moça da lanchonete que faz piadas sexuais com
frutas e barras de chocolate, e, enquanto dá risada do seu óbvio desconforto e
constrangimento, rouba alguns centavos do troco. Coisa que você perceberia se
soubesse a tabuada do 5.
Só que mesmo assim, mesmo sob o calor
de maio, nossas conversas nunca passaram do bom dia e do será que chove hoje. Boa
parte da culpa é minha, dos meus 23 anos de introversão e traquejo social
capenga, mas ao contrário da maioria das pessoas ela nunca me pareceu muito
ansiosa para dividir intimidades com estranhos na rua. E embora isso me roesse
um pouquinho por dentro todos os dias, respeitei e esperei ela me contar quando
fosse a hora certa ou ela finalmente chegasse ao último da lista dos santos
para os quais ela pedia uma trégua do calor.
O que nunca aconteceu e mesmo
assim Dona Lúcia continuou a aparecer. Até que as minhas aulas acabaram de
vez.
Ontem, depois de quase um ano sem
vê-la, por acaso um fiapo de voz pediu licença ao se sentar do meu lado naquele
ponto perto do CCBB. Não precisei tirar os olhos da tela do celular pra saber
quem era. E quase deixei cair metade do twix mais ou menos derretido que eu
segurava com os dentes quando respondi. É incrível como a gente pode esquecer
tudo sobre uma pessoa, menos o som da voz dela.
Sabendo que aquela era provavelmente a minha última chance comecei a embolar as palavras, perguntei pra onde ela estava indo e entrei naquele estado de nervosismo e pânico em que você não consegue lembrar exatamente o que fez e fica meio surdo, mas no fim das contas sabe que falou a coisa certa e não recitou passagens da bíblia em aramaico e de trás pra frente. Ou melhor, tem pelo menos 75% de certeza que não fez isso.
Ao que ela respondeu, me encarando de
cara limpa, mas com os aviators falsos um pouco tortos pra cima:
- É só porque eu gosto da companhia. E
já que eu tou indo, melhor não ir sozinha.
Aí a filha da mãe fez sinal pra um
ônibus. Sorrindo. Era o 2104 e eu tinha uma vaga noção do trajeto dele. Durante
quase um semestre inteiro ela nunca havia feito aquilo, mal se levantava do
banco quando conseguia um lugar, e agora aquela tia maluca estava toda serelepe
indo embora com a resposta da pergunta que me atormentou por tantas manhãs que
eu já tinha até perdido a conta.
Não aguentei e fui atrás.
Dentro do ônibus ela não quis papo. Passou
a roleta com uma agilidade que eu mesmo não tenho e ignorou as cadeiras
preferenciais vazias na parte da frente. Nem quis me dizer o seu nome quando
sentei ao seu lado. Dona Lúcia eu inventei pra tentar me convencer de que
aquilo tudo não era coisa da minha cabeça.
Ou era, vai saber. Porque depois
desse tempo todo não parecia que ela sequer lembrava que era minha parceira de
perrengue e nessa altura dos acontecimentos fazia bastante sentido eu ter
imaginado aquela velhinha de chapéu coco verde e camisa de flanela roxa em
episódios isolados de esquizofrenia ao longo da primeira metade do ano passado.
o que explicaria muita coisa, principalmente o meu diploma.
Perto do único lugar onde faria
sentido ela descer só o meu braço tentou alcançar o botão de parada. Ela
continuou sentada, olhando pela janela. Meu sangue ferveu. Não de raiva, mas de
desespero. Levantei e ela imediatamente mudou para o meu lugar pra fugir do
sol.
Pensei em dar tchau, provavelmente o
último e talvez o mais triste porque praquela desmemoriada dali uns dias tudo
aquilo não significaria nada, mas o ônibus fez uma curva abrupta, o tombo
iminente me trouxe de volta para a realidade e, o pior, para a assustadora
constatação de que as pessoas não acreditariam em mim sem algum tipo de prova
da existência dela.
Aí aproveitei a cara de pau e a
coragem recém adquiridas para soltar as mãos das barras de metal, puxar o
celular do bolso e fazer uma foto. Saíram três, todas tão horríveis que, embora
esse seja o propósito deles, nenhum filtro de aplicativo conseguiu
consertar.
Também não houve nada que desse jeito
na sensação de que eu estava sendo esmagado pela pressão do ar à minha volta,
então fiquei lá esperando passar enquanto o 2104 seguiu pela Amazonas até sumir
no meio dos outros ônibus azuis.
Junto com esses bons cinco minutos
parado do meio da calçada veio outra constatação aterradora: a de que eu passei
todo o ano passado fazendo exatamente isso, tentando arranjar provas concretas
das minhas decisões e sentimentos. Para os outros.
Eu me esforçava tanto para encontrar
algo palpável para validar o que eu sentia que agora, em retrospecto, parece um
desperdício de tempo e energia gigante e tão, tão absurdo que não me espanta
nenhum pouco admitir que, quando obviamente não conseguia achar nada, eu
abandonava. Tudo.
Eu corria em outra direção ou fazia
uma besteira para implodir a coisa toda antes mesmo de ela se tornar real em
algum lugar que não fosse só a minha cabeça. Sempre inventando desculpas. Sempre
deixando pra mais tarde ou para outro dia, com medo de descobrir aquela verdade
que não era lá muito agradável se eu insistisse um pouco mais. De certa forma,
como Dona Lúcia, sempre fugindo pra sei lá onde.
Até que ontem eu fui atrás.
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Seu blog é muito adorável <3
ResponderExcluirbrigado, shibbo (:
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